quarta-feira, 3 de outubro de 2012


Sociedade e Natureza
Prof. Maicon Martta

A crise ambiental está ligada, principalmente, à forma como a sociedade se relaciona com o meio ambiente. Fato que trás os problemas ambientais a uma esfera interdisciplinar, que diz respeito também à sociologia.
O homem pertence a duas esferas, a dois âmbitos distintos: o âmbito natural e o social. No entanto, é freqüente a negligência em relação a esse aspecto. Por vezes, o homem esquece que pertence a essas duas esferas, e acaba agindo como se estivesse fora do mundo, como se não fizesse parte dele, e insistindo em ser seu Senhor.
Quando analisamos o homem como ser social, pensamos a natureza como fonte de sustento, como recurso para nos servir e não como extensão de nós mesmos. O homem também é natureza, faz parte dela e não é superior ou segregado a ela. O homem tem que ter em mente que nossa espécie não é uma espécie separada e especial, mas apenas mais uma espécie dentre tantas outras existentes.
Uma série de fatores levam o ser humano a pensar que é o senhor da natureza. São elas: a racionalidade ( que apresenta uma contradição em relação à irracionalidade de certos atos); a visão moderna de mundo (em que o ideal está na industrialização e desenvolvimento focados no progresso); Na modificação constante do meio ambiente (antropomorfismo); Nas diferentes culturas e na Religião (que coloca o homem como um ser especial, senhor da natureza).
A racionalidade da a falsa impressão de que o homem, por ser dotado dessa dádiva, pode qualquer coisa, ou seja, pode agir sem limites. Mas essa mesma racionalidade, que é capaz de realizar tantas maravilhas é incapaz de levar em consideração que não se pode mais pensar a realidade sem se levar em conta um sistema, em que tudo está relacionado num processo de mútua dependência.
A visão moderna do mundo justifica seus atos nocivos ao meio ambiente em pró de um progresso, seja eles, econômicos, científicos ou de infraestrutura. Essa visão é a responsável, por exemplo, da recusa de certos países a assinar o protocolo de Kyoto, no Japão. 
A ação humana, a mudança do espaço geográfico é algo que acontece desde tempo imemoriais. O homem sempre se adaptou ao meio, mas também sempre adaptou o meio à suas necessidades. O alastramento das cidades, as mudanças na zona rural, o desvio de rios para o armazenamento de água e a construção de hidrelétricas. Tudo isso afeta o meio em que vivemos e por melhores que sejam as intenções, são nocivos ao meio ambiente.
As diferentes culturas e religiões também contribuem para esse quadro. Algumas culturas, protegidas por lei, têm permissão para caçar animais em risco de extinção. Compreende-se, no entanto, que essas culturas também estão ameaças e por isso essa determinação legal. Mas a cultura envolve mais do que hábitos, valores e costumes de um povo. Vivenciamos uma forte influência da cultura de mercado. De expansão econômica e tecnológica que vem ocorrendo desde o fim da Segunda grande Guerra. Dentro dessa cultura, o avanço tecnológico e industrial pesa muito mais do que a conscientização ambiental. De fato, as grandes discussões relacionadas a esse problema giram em torno dessa questão. A tentativa de descobertas de novas fontes de energias, limpa, esbarram em burocracias que envolvem a economia e o capital.
Já na questão religiosa, as principais religiões do mundo, a saber: o judaísmo, o cristianismo e o Islamismo, que têm sua raiz no profeta Abraão, e nos primeiros livros conhecidos como Pentateuco. Lembramos que o primeiro livro da bíblia que narra a criação do mundo e de tudo que existe coloca o homem numa posição privilegiada em comparação aos demais seres criados. Lê-se no capítulo 1, verso 26: “também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rasteja na Terra”, mais adiante no mesmo capítulo lê-se: “[...] e a todos os animais da terra, e a todas as aves dos céus, e a todos os répteis da terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes será para mantimento”.
Percebe-se que uma cultura fortemente religiosa acaba enraizando seus preceitos de maneira direta, mantendo hábitos que consideram naturais, afinal sempre estiveram ali escritos, o que faz com que não se contrarie o que vem sendo tido como tradição.
Não obstante, a relação entre Sociedade e Natureza varia de acordo com a cultura e também a religião. Os budistas respeitam todas as formas de vida, assim como outras religiões orientais e indígenas. Cultura diferente, diferente relações, mas é inegável que o homem transforma a natureza e que isso, acarrete conseqüências desastrosas para as gerações futuras.
Consciência ambiental é a palavra de ordem nos dias que seguem, é o imperativo do novo século, basta sabermos se seremos racionais e agir como tais, ou continuar agindo como se fossemos senhores do universo, sem levar em consideração o Todo que depende de nós como parte. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012


Sujeito e Realidade
Prof. Maicon Martta


“Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”
Sócrates
“Nosce te ipsom”[1]
(Inscrição do Templo de Apolo em Delfos)

Deleuze, filósofo francês contemporâneo, diz em algures, que a filosofia surge em momentos de crise, não para solucionar os problemas suscitados pela mesma, mas para mostrar a direção a se seguir para a obtenção de tal fim. A filosofia por si só não resolve nada e isso faz com que às vezes ela seja mal interpretada pelo seu aspecto especulativo e não pragmático. No entanto, é através da filosofia que podemos percorrer os grandes problemas da humanidade e apontar o caminho para possíveis soluções que caberá à outras disciplinas originadas da filosofia e que tenham caráter mais prático solucionar.
A filosofia nasceu no séc. VII a.C. para confrontar o pensamento mítico que não oferecia uma explicação satisfatória acerca do mundo e da realidade. Por esse motivo, os primeiros filósofos se interessavam pelas questões como: a origem do cosmos e do mundo, assim como de toda a realidade existente. Esses primeiros filósofos, por pensarem a natureza da realidade eram chamados de filósofos da Physis, ou da natureza. Através de seus pensamentos muitos caminhos foram apontados para que se respondesse a pergunta “Como se constitui a realidade?”.
A partir dessas vias, o pensamento foi se modificando, novas luzes a esses problemas eram trazidos, sendo aperfeiçoados por uns e contestados por outros. O questionamento sobre a origem do universo e da realidade perdurou até o desenvolvimento do pensamento de Sócrates.
Sócrates inova o pensamento filosófico em dois aspectos fundamentais:
·                           Primeiramente, Sócrates foi responsável pela mudança temática da filosofia. Os primeiros filósofos pensavam o mundo e a realidade, a partir de Sócrates a filosofia começa a pensar o homem, o sujeito e sua conduta perante a sociedade. Por introduzir esse pensamento, Sócrates é considerado um divisor de águas, e a filosofia do período anterior ao filósofo de Atenas passou a ser conhecido como Pré-socrático.
·                           O segundo ponto fundamental trazido por Sócrates e inovando a filosofia foi o método utilizado por ele.  O método socrático se apresenta em dois passos distintos: O elenkhos (refutação) e a maiêutica (desenvolvida através da Ironia Socrática).

Com Sócrates, a reflexão sobre o homem e sua conduta aponta para a filosofia uma nova problemática que se estenderá até a contemporaneidade. A partir dele, não só a realidade passou a ser pensada, mas também o desenvolvimento e comprometimento do homem com essa realidade. Nessa perspectiva, novos questionamentos sobre a constituição da realidade tomaram foco no pensamento filosófico, perguntas como: O que origina a realidade? O sujeito é elemento condicionante na constituição da realidade ou apenas mais um elemento? Quem é que caracteriza o que é real?
Questionamentos como estes serão o fio condutor da reflexão filosófica até a atualidade, ora explorando de forma mais minuciosa o sujeito ora a realidade, mas sempre num eterno e profundo questionar, efetivando a proposta filosófica de apontar caminhos para a pretensa solução de problemas.


[1] Conhece-te a ti mesmo.

quinta-feira, 14 de junho de 2012


Teodicéia



Teodicéia é um conceito filosófico-teológico que parte do pressuposto da existência de Deus e tem como objetivo o entendimento desse Deus. Sendo assim, Teodicéia, grosso modo, significa a justificação de Deus por intermédio da razão, em outras palavras é a explicação teológica sob à luz da razão, o que para muitos pesquisadores é uma incoerência, uma vez que para esses as questões teológicas envolvem unicamente a fé.

O texto que se segue busca esclarecer um pouco esse conceito e auxiliar os leitores a compreendê-lo e a se posicionarem em relação a ele. Para tal, utilizarei, na íntegra, um texto bastante esclarecedor utilizado pelo professor Theobaldo Miranda Santos, em seu curso de filosofia e ciências e que foi publicado pela Companhia editorial Nacional, no ano de 1961, com o título de Manual de Filosofia. 

Prof. Maicon Martta
 



I.                   Noção de Teodicéia


   Definição: Segundo sua etimologia, teodicéia significa justificação de Deus. Esta denominação foi, a princípio, reservada às obras destinadas a defender a Providencia contra as dificuldades suscitadas pelo problema do mal. Mais tarde, teodicéia tornou-se sinônimo de teologia natural, aplicando-se ao estude de Deus pela razão.

A teodicéia representa, portanto, uma ciência racional por que se baseia nos recursos naturais na inteligência humana. Distingue-se da teologia que estuda Deus à luz dos dados da Revelação.

Método: Devido ao caráter transcendente do seu objetivo, a teodicéia não é uma ciência experimental, como a física ou a química. Não representa também uma ciência abstrata e a priori, como a geometria, pois o seu objeto não é uma simples abstração e sim a mais real e concreta das realidades.

Sendo Deus absoluto e real, infinito e concreto, e só podendo ser apreendido pelos seus efeitos, a melhor maneira de estudá-lo é partir da observação dos fatos para daí subir, por meio da razão, até o infinito e absoluto.

Divisão: A ideia de Deus compreende três noções: essência absoluta: Deus existe por si, independente de toda plenitude do ser e da perfeição; existência perfeita: Deus abrange em sua natureza a plenitude do ser e da perfeição; causalidade universal: Deus é a razão de ser e a causa primeira de tudo o que existe.


II.                Existência de Deus


Demonstração da existência de Deus: Antes de abordar o estudo das provas da existência de Deus, convém verificar se essas provas são necessárias e possíveis. Os ontologistas, por exemplo, afirmam que é uma tarefa inútil demonstrar a existência de Deus, enquanto que os fideístas e agnósticos negam a possibilidade dessa demonstração. Comecemos por examinar esses dois pontos de vista.

Argumento Ontológico: Os ontologistas proclamam que não é necessário demonstrar a existência de Deus, pois, na sua opinião, a existência de Deus é evidente por si mesma e que não se demonstra a evidência.

Centros ontologistas (Malebranche, Gioberti) admitem que temos a intuição de Deus na intuição do ser universal, donde o nome de ontologismo conferido a essa doutrina. Outros (Sto. Anselmo, Descartes) se limitam a afirmar que a existência de Deus é evidente a priori, bastando para isso compreender o que significa a palavra Deus. Com efeito, dizem eles, a palavra Deus que dizer “o Ser que tem todas as perfeições”. Ora, a existência é uma perfeição, logo Deus existe. Não se pode, portanto, conceber Deus, sem apreender, ao mesmo tempo, sua existência.

O argumento ontológico é falso. A intuição do ser universal ou inteligível não representa a intuição de Deus ou do Ser infinitamente perfeito, mas apenas a intuição do ser indeterminado. Por outro lado, não é evidente para todos, mesmo entre os deístas, que Deus seja um ser absolutamente perfeito. Muitos filósofos têm confundido Deus com o mundo e certos povos tem emprestado uma natureza divina aos astros, aos animais, etc.

Além disso, o argumento ontológico constitui um verdadeiro sofisma, pois passa, indevidamente, da ordem lógica para a ordem real. É claro que não posso conceber um ser perfeito, sem o conceber como existente (ordem lógica), mas isto não prova que esse ser perfeito exista realmente (ordem real). Sendo assim, torna-se a necessária a demonstração da existência de Deus.

Argumento fideístas e agnóstico: Os fideístas admitem que a existência de Deus é um problema que ultrapassa os recursos da razão humana, só podendo, por isso, ser resolvido pela fé. Os agnósticos negam à razão e à fé o poder de provar a existência de Deus. Na sua opinião, nosso conhecimento não vai além da experiência sensível. Logo, tudo que transcende o plano dos sentidos é inacessível ao conhecimento humano e, portanto, indemonstrável. É o caso da existência de Deus.

Ora, como mostra Sto. Tomás, nosso conhecimento de Deus tem, realmente, uma origem sensível, pois parte dos efeitos sensíveis do poder divino. Sob esse aspecto, não podemos ter um conhecimento perfeito de Deus, pois não existe nenhuma proporção entre a natureza divina e suas obras sensíveis. Mas a demonstração fornecida por essas obras nos permite conhecer Deus como causa das mesmas. Por conseguinte, ao contrário do que supõem os fideístas e agnósticos, a inteligência humana, partindo dos efeitos sensíveis, pode elevar-se, por meio do raciocínio, até à natureza e atributos da Causa Primeira da realidade universal.

Provas da existência de Deus: Dividem-se as provas da existência de Deus em provas metafísicas e provas morais, conforme parte da realidade objetiva do universo ou da realidade moral. Na verdade, porém, toda prova de Deus é metafísica, uma vez que a existência de Deus não é objeto de apreensão intuitiva e só pode ser demonstrada à luz de princípios metafísicos.

1)      Provas Metafísicas:

A existência do mundo: O mundo existe. Ora, o mundo, - que é contingente, que não existe por si mesmo, que não tem em si próprio a razão suficiente de sua existência, que não poderia ter-se originado do nada ou do acaso -, só pode existir pela ação de um Criador incriado, eterno e necessário que é Deus.

A existência do movimento: O movimento existe no mundo. Ora, o movimento não é essencial, mas acidental à matéria. A existência do movimento precisa, para sua explicação, de um primeiro motor imóvel, princípio necessário e imutável de todo movimento. O dinamismo incessante do universo supõe um impulso inicial que só poderia ter sido dado por Deus.

A existência da vida: A vida existe sobre a terra. Ora, a terra não tendo possuído sempre seres vivos, como provam as observações geológicas; a vida só podendo originar-se da vida, como atestam as experiências biológicas; os seres vivos só podendo gerar seres semelhantes a si mesmos, - como explicar a existência da vida em todos os seus graus, sem a intervenção de um poder superior às forças da matéria, de um ser criador transcendente, enfim, de Deus?

A existência da ordem do universo: Todo efeito em que se verifica a escolha de meios adequados para atingir um fim, supõe uma causa inteligente. Toda ordem implica uma razão ordenadora. Ora, no universo, quer no seu conjunto ou na suas partes, quer na sua natureza física, orgânica ou psíquica, vamos encontrar uma coordenação harmoniosa e perfeita de meios e de fins. Logo, a existência da ordem do universo prova a existência de um ordenador perfeito, de uma causa infinitamente sábia que é Deus.

2) Provas Morais:

A existência da lei moral: Todo ser livre tende a realizar, na medida do possível, seu fim particular que é o bem moral, e seu fim universal que é o bem supremo. A lei moral ou princípio do dever existe e se impõe à nossa razão e à nossa vontade: o homem tem a noção do dever, que o impele a fazer o que é bom e evitar o que é mau. Ora, essa lei – que não poderia provir do mundo físico, nem da natureza humana, masque existe formada em nossa consciência –, supõe uma causa e uma autoridade, que tenham os mesmos caracteres que ela, isto é, que sejam universais, imutáveis e eternas.

Logo, como não há lei sem legislador, obrigação sem autoridade, e autoridade sem um ser real que a exerça, Deus existe como causa suprema da noção do dever, e como autoridade que confere ao principio do dever o seu caráter imperativo absoluto.

O mérito e o demérito: Todo ato conforme ou contrário à lei moral merece uma recompensa ou penalidade proporcional ao seu grau de bondade ou maldade. Por conseguinte, o principio do mérito e do demérito existe e nosso espírito o concebe como complemento necessário do principio do dever.

Ora, esse princípio que não deriva do mundo físico ou da natureza humana; que é universal, imutável e eterno como o princípio do dever; que não constitui apenas um fato intelectual, mas a garantia absoluta duma sanção perfeita, adequada à lei moral, implica a existência de uma causa real e absoluta, isto é, Deus.

O consentimento universal: A ideia de Deus não é apanágio dos filósofos e dos cientistas, nem uma noção moderna ou um conceito da civilização ocidental. “É uma ideia universal no tempo e no espaço”. Em todos os quadrantes da terra, em todas as formas de cultura, em todos os povos, ao longo de toda a história, sábios ou ignorantes tem proclamado sua crença num Senhor soberano do universo. “Nem as mitologias, observa Jolivet, por vezes tão estranhas, onde se manifesta a crença em Deus, nem o ateísmo que se encontra na história, sobretudo contemporânea, podem dissimular o fato indiscutível do consentimento unânime do gênero humano em torno da existência de Deus”.

Esta universalidade de opinião demonstra que a crença em Deus se apóia sobre razões poderosas e acessíveis a todas as inteligências, e que resulta do exercício normal do pensamento humano quando obedece às suas exigências racionais.

As aspirações da alma humana: O sentimento religioso, isto é, o conjunto das aspirações que levam o homem a procurar, além dos seres finitos, um ser infinito, perfeito e absoluto, onde possa realizar a satisfação plena e integral das suas tendências para a verdade, para a beleza e para a bondade, existe em todas as criaturas humanas e aparece com um relevo mais acentuado nas almas mais puras, inteligentes e livres.

Ora, esse sentimento que representa um dos elementos constitutivos da natureza do homem é uma tendência tão real e viva como qualquer outra inclinação física, intelectual ou social. Deve, portanto, possuir uma causa e um objeto reais: uma causa soberanamente boa, inteligente e perfeita e um objeto com idênticos caracteres. É para essa causa e para esse objeto, aureolado por tais caracteres, que o sentimento religioso impele, irresistivelmente, a nossa alma. Por conseguinte, Deus existe como causa e objeto do sentimento religioso e das aspirações superiores da alma humana.

A experiência mística: Certas almas privilegiadas, profundamente religiosas, como São Paulo, São Francisco de Assis, Santa Teresa São João da Cruz, etc., tem afirmado ter estado em contato direto e vivo com Deus, de uma maneira que ultrapassam todos os meios de expressão humana. Nesse “contato experimental” tiveram o ensejo de desfrutar, com irresistível evidencia, a presença soberana de Deus.

Poderíamos admitir, sem dúvida, como observa Jolivet, que essa “experiência mística” constitui simples ilusão. Mas essa interpretação se apresenta cheia de dificuldades insuperáveis quando atentarmos para o fato de a referida experiência se ter realizado com espíritos lúcidos e sadios, com caracteres retos, puros e leais, com pessoas cuja vida foi sempre um modelo de equilíbrio, de elevação e de bondade.

O argumento baseado no fato místico consistirá, portanto, em dizer que essa experiência mística das grandes almas cristãs é absolutamente inexplicável se a intervenção de Deus. Não é possível acreditar que todos esses espíritos religiosos se tenham enganado ao afirmarem, com convicção serena e inabalável, a existência das mesmas realidades sobrenaturais que conheceram por experiência pessoal. Resta apenas concluir, com Bérgson, que há, na unanimidade dos grandes místicos cristãos, ao descreverem suas experiências, “o sinal de uma identidade de intuição” que só se explica “pela existência real do Ser e com o qual (os místicos) se crêem em comunicação (R. Jolivet, Cours de philosophie, 1938, p.268.)


III.             Natureza e atributos de Deus


Natureza de Deus: O homem pode elevar-se, por meio de sua inteligência, até o conhecimento da natureza divina. Para isso, utiliza-se dos efeitos dessa natureza na realidade universal. Como os efeitos apresentam sempre alguma semelhança com a causa que os produziu, nosso conhecimento da natureza divina, é, sem dúvida, real. Mas permanece incompleto e imperfeito, uma vez que uma coisa só pode ser conhecida perfeitamente quando considerada em si mesma. Como Deus é perfeição absoluta e infinita e nossa inteligência relativa e limitada, jamais poderemos aprender a natureza divina na plenitude dos seus atributos.

Atributos de Deus: Podemos distinguir em Deus três espécies de atributos: atributos entitativos ou metafísicos, que nos mostram Deus como ser e substancia absolutos; atributos operativos, que no-lo revelam como ser espiritual em suas operações ou atos; atributos morais, que no-lo manifestam como pessoa moral.

1)      Atributos Entitativos:

Simplicidade: Deus não é composto de partes, pois toda composição implica imperfeição. O composto depende, necessariamente, dos elementos que o constituem. Deus é, portanto, perfeitamente simples.

Infinidade: Deus é infinito, isto é, sem limite em seu ser, pois é o ser por si, o ser que existe por sua própria essência. Nada existe além e acima de Deus, que de nada depende e ao qual tudo está subordinado.

Unicidade: Sendo infinitamente simples, Deus é infinitamente uno e indivisível. Mas é também absolutamente único. Supor dois ou mais Deuses igualmente perfeitos, seria absurdo. Dois Deuses seriam idênticos e então se confundiriam, ou seriam diferentes e então não poderiam ser ambos infinitamente perfeitos.

Imensidade: Sendo infinito, Deus não pode ser circunscrito ou limitado por qualquer coisa. A imensidade é a perfeição infinita pela qual Deus, sem ser extenso, ou ocupar algum espaço, porque é absolutamente simples, o enche integralmente com a sua presença e onipotência.

 Imutabilidade: Toda mudança constitui um progresso ou uma decadência. Só mudam e se transformam os seres imperfeitos. Sendo necessariamente perfeito, Deus é imutável, isto é, permanece necessariamente idêntico a si mesmo, sem nenhuma mudança ou variação.

Eternidade: Sendo necessário e infinito, Deus não tem começo nem fim. Só possuem duração limitada os seres imperfeitos. Deus, sendo infinitamente perfeito, é eterno. Não tem passado, futuro, nem presente.

2)      Atributos Operativos:

Inteligência: Sendo tudo, em Deus, infinito, sua inteligência e sua ciência são também infinitas. Para saber, ele não precisa raciocinar. Tudo vê e conhece por intuição direta e imediata.

Vontade: A vontade divina não possui limite e é livre de todo obstáculo. A Deus basta querer para fazer. Age com absoluta independência e sem contradição. Deus é onipotente.

3)      Atributos Morais:

Sabedoria: A inteligência infinitamente perfeita de Deus gera a sabedoria absoluta que o faz empregar os meios mais eficazes para os fins mais dignos. Deus tudo governa com inteligência, segurança e ordem.

Bondade: Deus é amor infinito e perfeito. Ama as coisas segundo seu valor e na proporção do seu mérito. Sendo o Bem supremo, ama a si mesmo e a todos os seres criados, na medida em que participam da sua infinita perfeição, isto é, que imitam sua essência divina. 

Justiça: Sendo em grau infinito, inteligente, sábio e bom, Deus é justo. Possuindo santidade absoluta que é ordem do amor, Ele age com justiça infinitamente perfeita. Por isso, pune o mal e recompensa o bem.


IV.              Relações de Deus com o mundo:


Deus e o Mundo: Na explicação das relações de Deus com o mundo, cumpre-nos evitar os seguintes erros:

a) o dualismo, que admite a coexistência de dois princípios, um de perfeição e outro de imperfeição, ambos eternos e necessários, concorrendo ambos para a formação do mundo; b)o panteísmo, que afirma a identidade substancial de Deus e do mundo; c) o antropomorfismo, que humaniza Deus ou diviniza o homem.

O dualismo é a negação da natureza divina; o panteísmo é contrário à experiência e à realidade moral; o antropomorfismo é absurdo dada a contingência e imperfeição do homem.

Criação e providência: As relações entre Deus e o mundo são explicadas de maneira racional pela doutrina da criação e da providência. Segundo a concepção criacionista, Deus, pelo seu poder e bondade infinitos, tirou o mundo do nada, isto é, sem perda da sua substância, deu existência ao mundo. Segundo a concepção providencialista, Deus não abandonou o mundo depois de criá-lo. Continua, ao contrário, influir, a todo momento, sobre o mundo, com sabedoria e amor, para conservar e dirigir no sentido dos fins estabelecidos pela ordem da criação.

Imanência e Transcendência: O estudo da natureza de Deus e das suas relações com o universo nos mostra que Ele é imanente e transcendente ao mundo. Isto significa que Deus está unido ao mundo que criou, mas dele se distingue como realidade independente. Sendo a causa Primeira de tudo o que existe, Deus é imanente pela sua presença continua e atuante, pos os seres existem e subsistem pela influencia constante do seu poder criador e providencial. Essa imanência não deve ser entendida como identificação com o mundo, o que seria incidir no erro panteísta.

A imanência ou presença divina não exclui a transcendência, isto é, a absoluta independência de Deus do universo e o seu absoluto domínio sobre todas as coisas. O exame da natureza e atributos divinos que acabamos de realizar nos leva à conclusão de que Deus, sendo um Ser infinito, substancialmente distinto do universo que criou, conserva e dirige, é um Ser pessoal, isto é, dotado de uma personalidade autônoma, inteligente e livre.



(Theobaldo Miranda Santos – Manual de Filosofia) 



Levando em consideração à contribuição do professor Theobaldo Miranda Santos, percebe-se que Teodicéia é uma forma de explicação racional de Deus, justificando-o não pela Revelação (os livros sagrados religiosos, como a Bíblia, o Tora, o Alcorão etc.), mas pela razão, tendência que ficou conhecida posteriormente de Teologia Natural. Sendo assim, a teodicéia não é uma ciência experimental e nem empírica, mas parte dos efeitos e da observação dos fatos, num esforço racional de entendimento.

A crença em Deus e a relação com o que se considera Sagrado ou Divino, é um traço cultural humano e inerente a ele. Essa crença é uma etapa clara do desenvolvimento intelectual do homem. O ser humano só pôde desenvolver um sistema de crença depois de compreender a sua limitação perante o deslumbre da natureza. Na tentativa de compreensão daquilo que se considerava infinito, eterno e inabalável, o homem percebeu sua finitude, sua dependência e sua necessidade de projetar suas esperanças em algo que o ligasse àquilo que tinha como sagrado, condição que levou à origem daquilo que chamamos de Religião.

Prof. Maicon Martta





Bibliografia Consultada:


SANTOS, Theobaldo Miranda.  Manual de Filosofia. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1961.



Dica de Leitura:


- As Máscaras de Deus – Joseph Campbell

segunda-feira, 11 de junho de 2012


Filosofia Política: Os Contratualistas


Como resultado das grandes navegações européias foram descobertas novas terras, novos mundos, novos povos e conseqüentemente novas concepções de sociedade. E, em contraposição do homem europeu (descobridor) surgiu o nativo selvagem. O nativo selvagem, no entanto, pode ser considerada uma visão etnocêntrica do homem europeu. Essa condição gerou muita discussão acerca da constituição social e política das sociedades ditas humanas, e mesmo no que era necessário para se considerar humano, uma vez que o homem selvagem encontrou resistência de aceitação dessa condição de humanidade.

Depois de muita discussão, considerando os indígenas seres selvagens, os europeus começaram a indagar-se pela condição humana anterior à civilização e à organização social, condição que ficou conhecida como Estado de Natureza. Segundo pensadores dos séculos XVII e XVIII, ela era marcada pelo direito natural (Jus naturale) e pela lei natural (Lex naturalis). Esses conceitos formaram a base do jusnaturalismo, concepção filosófica que entendia o direito natural como sendo a liberdade para preservar a própria vida, e a lei natural como sendo o dever de preservar-se.

A passagem desse estado natural ou de natureza para o Estado civil ou de sociedade se dava por meio de um contrato social, por isso o nome Contratualistas para se referir aos pensadores que se dedicaram a esta questão. Sendo assim, se pensarmos em uma estrada interrompida por um vale, o contrato social seria a ponte que ligaria o Estado de Natureza ao Estado civil.



O Pacto Social segundo Thomas Hobbes (1588 – 1679)


Para o filósofo inglês Thomas Hobbes, o homem, embora vivendo em sociedade, não possui um instinto natural de sociabilidade. Cada homem sempre encara seu semelhante como um concorrente que precisa ser dominado.

No estado de natureza o homem estaria numa constante “guerra de todos contra todos”, concepção que levou a usar o termo homo homini lupus – o homem é o lobo do homem. Nesse sentido, no estado de natureza prevaleceria a barbárie, a luta e a disputa de todos contra todos, onde os homens estariam dispersos devido aos seus interesses particulares que não poderiam ser resolvidos se não por disputa.

Para que houvesse a união dos homens e o fim da barbárie era necessária a criação de um Pacto social, que garantiria aos homens segurança.  Por meio desse pacto (ou contrato) os indivíduos renunciariam à sua liberdade em favor de um soberano, transferindo os seus poderes a ele. Este Soberano, segundo Hobbes, seria o ESTADO e os poderes atribuídos a ele seria a criação e a aplicação das Leis Civis e de coerção. Segundo este filósofo, o pacto, caracterizado pela renuncia dos poderes e liberdades individuais de todos em favor de um soberano, resultaria na instituição da soberania e do Estado Civil. Desse modo, o poder soberano, representado pelo governante, defenderia todos os direitos dos cidadãos e o cumprimento do pacto, ainda que à força, mas respeitando o direito natural. Somente ele garantiria aos membros da sociedade a preservação da vida e da liberdade.

Hobbes costumava comparar as atribuições do estado a um monstro bíblico chamado de Leviatã, nome que deu a sua obra política mais celebre.



O Pacto Social segundo John Locke


Assim como Hobbes, o filósofo inglês Locke também refletiu sobra a origem do poder político e sobre sua necessidade para congregar os homens, que, em seu estado de natureza viviam isolados.

No entanto, enquanto Hobbes imagina um estado de natureza marcado pela guerra e pela violência, Locke faz uma reflexão mais moderada e se refere ao estado de natureza como uma condição na qual, pela falta de uma normatização geral, cada qual seria juiz de sua própria causa, o que levaria ao surgimento de problemas nas relações entre os homens. Para evitar esses problemas que o Estado e o pacto social deveriam ser criados. O Estado teria a função de garantir a segurança dos indivíduos e seus direitos naturais, como a liberdade e a propriedade.



O Pacto segundo Montesquieu


Como representante francês à filosofia política e à sociologia surge o Barão de Montesquieu, no século XVIII.

Montesquieu era um defensor do pensamento liberal. Em sua obra mais célebre chamada O espírito das leis, ele refletiu sobre a relação entre as leis e as formas de governo, enfatizando a divisão dos poderes do Estado. Dessa forma o Estado se dividiria em três poderes: Executivo, legislativo e judiciário, divisão que já havia sido proposta por Locke.

Em relação ao Estado de natureza, Montesquieu discordava de Thomas Hobbes e Locke. O homem em estado natural não se caracterizava pela guerra, mas pela fraqueza e o medo, situações que o levariam a ser juiz de sua própria causa. O contrato social aproximaria os homens, levando à formação do Estado civil, garantindo dessa forma a segurança e a prosperidade.



O Pacto segundo Jean Jacques Rousseau


J.J. Rousseau, diferente de Hobbes, glorifica os valores da vida natural e ataca a corrupção, a avareza e os vícios da sociedade civilizada. Exalta a liberdade que o homem selvagem teria desfrutado na pureza do seu estado natural, contrapondo-o à falsidade e o artificialismo da vida civilizada.

Assim, para Rousseau, “o homem nasce bom, é a sociedade que o corrompe”. Segundo ele, a condição original de liberdade e inocência desaparecera quando o primeiro homem cercou um terreno e se intitulou proprietário, o que originou as diferenças sociais. Ao mesmo tempo em que se iniciam as diferenças sociais, se iniciam também as disputas pelas riquezas e pelo poder. 

O Estado de sociedade, para Rousseau, seria dessa forma marcado pela insegurança e violência. Portanto, levaria os homens à renúncia do poder pessoal ilimitado e à realização do contrato social.

No entanto, esta renúncia não se daria em favor de um homem soberano como havia proposto Hobbes, mas de uma vontade geral. A elaboração do Estado civil por meio do pacto (contrato) social visava a Soberania do Povo.  

Sintetizando:


Thomas Hobbes: O homem no Estado de Natureza era mau. O pacto social visava a transferência da liberdade e dos poderes individuais para o Estado, ou um soberano. Favorecia o absolutismo.

John Locke: O homem no Estado de natureza era o juiz de sua própria causa. O pacto social garantiria as leis assegurando o direito natural e o direito à propriedade. Favorecia o liberalismo.

Barão de Montesquieu: O homem no Estado de natureza era fraco e vivia com medo. O pacto social aproximava os homens o que levou à criação do Estado Civil e a efetivação da divisão dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário). Favorecia o liberalismo e o direito ao voto.

J.J. Rousseau: O homem no Estado de Natureza era bom, a sociedade que o corrompe. O pacto social levaria o homem à renúncia do poder pessoal ilimitado em nome de uma vontade geral. Visava uma democracia, a soberania do povo e a igualdade.  



Dicas de Leitura:



- O Leviatã – Thomas Hobbes

- Do Contrato Social – J. J. Rousseau

- A origem da desigualdade entre os homens – J. J. Rousseau.

segunda-feira, 28 de maio de 2012


Lógica Moderna e Contemporânea.

Prof. Maicon Martta

Introdução a Lógica Simbólica:



Na lógica antiga, os princípios e as leis da lógica correspondiam à estrutura da própria realidade, pois o pensamento exprime o real e dele participa. Para os medievais e para os modernos, ou clássicos (Séc. XVII), a lógica era uma arte de pensar para bem conduzir a razão nas ciências. Como arte de pensar, a lógica oferecia ao conhecimento científico e filosófico as leis do pensamento verdadeiro e os procedimentos para a avaliação dos conhecimentos adquiridos.

A lógica Moderna não era plenamente formal, pois não era indiferente aos conteúdos das proposições nem às operações intelectuais do sujeito ao conhecimento. A forma lógica recebia o valor de verdade ou falsidade com base na verdade ou falsidade dos atos de conhecimento do sujeito e na realidade ou irrealidade dos objetos conhecidos, no entanto, com menos rigor do que na antiguidade.

Já a lógica contemporânea, procura tornar-se puro simbolismo do tipo matemático e um cálculo simbólico, preocupando-se cada vez menos com o conteúdo material das proposições (a realidade dos objetos referidos pela proposição) e com as operações intelectuais do sujeito do conhecimento (a estrutura do pensamento). Em outras palavras, tornou-se plenamente formal.

Assim, como o matemático lida com objetos que foram construídos pelas próprias operações matemáticas, de acordo com princípios e regras prefixados e aceitos por todos, assim também o lógico elabora símbolos e as operações que constituem o objeto lógico por excelência, a proposição. O lógico indaga que forma deve possuir uma proposição para que:

·         Seja-lhe atribuído o valor de verdade ou falsidade;

·         Represente a forma do pensamento; e

·         Represente a relação entre pensamento, linguagem e realidade.

A lógica descreve as formas, as formas, as propriedades e as relações das proposições, graças à construção de um simbolismo regulado e ordenado que permite diferenciar linguagem cotidiana e linguagem lógica formalizada.

Boole definiu a lógica como “o método que repousa sob o emprego de símbolos, dos quais se conhecem as leis gerais de combinação e cujos resultados admitem interpretação coerente”. A lógica tornou-se cada vez mais uma ciência formal da linguagem, uma linguagem inteiramente construída por ela mesma, com base no modelo matemático, inaugurado por Leibniz no século XVII, na filosofia moderna.

A lógica simbólica ou matemática pode ser considerada, em síntese, como ciência do raciocínio e da demonstração. A lógica simbólica trata do estudo das sentenças declarativas também conhecidas como proposições, as quais devem satisfazer aos dois princípios fundamentais do modelo aristotélico seguintes:

1) Princípio da não contradição: Uma proposição não pode ser ao mesmo tempo verdadeira e falsa.

2) Princípio do terceiro excluído: Uma proposição só pode ser verdadeira ou falsa, não existindo uma terceira alternativa.

Diz-se então que uma proposição verdadeira possui valor lógico V (verdade) e uma proposição falsa possui valor lógico F (falso). Os valores lógicos também costumam ser representados por 0 (zero) para proposições falsas ( 0 ou F) e 1 (um) para proposições verdadeiras ( 1 ou V ).  As proposições são representadas pelas letras latinas minúsculas p, q, r, s, t, u.

De acordo com as considerações acima, expressões do tipo, "O dia está bonito", "3 + 5", "x é um número real", "x + 2 = 7", etc., não são proposições lógicas, uma vez que não poderemos associar a ela um valor lógico definido (verdadeiro ou falso).

Exemplificaremos agora algumas proposições com o seu valor lógico especificado ao lado.

p: A soma dos ângulos internos de um triângulo é igual a 180º (V ou 1).

q: 5 + 3 = 2 (F ou 0).

r: O sol é um planeta (F ou 0).

s: 3 + 4 = 7 (V ou 1).

Modificador Negação: dada a proposição p, daremos sua negação por ~p (lê-se não p)

Ex. p: Três pontos determinam um único plano (V).

     ~p: Três pontos não determinam um único plano (F).

Obs. Duas negações equivalem a uma afirmação, ou seja, em termos simbólicos: ~(~p)= p



Operações lógicas: As proposições lógicas podem ser combinadas através dos operadores lógicos Ù , Ú , ® e « , dando origem ao que conhecemos como proposições compostas. Assim, sendo p e q duas proposições simples, poderemos então formar as seguintes proposições compostas: p Ù q, p Ú q, p ® q ou ainda, p « q.

Essas proposições compostas recebem designações particulares, conforme veremos a seguir:

Conjunção: p Ù q  (lê-se p e q).

Disjunção: p Ú q (lê-se p ou q).

Condicional: p ® q (lê-se, se p então q).

Bi-condicional: p « q (lê-se, p se e somente se q).



Tabela de Verdade: Sejam p e q duas proposições simples, cujos valores lógicos representaremos por 0 quando falsa (F) e 1 quando verdadeira (V). Podemos construir a seguinte tabela simplificada:

p
q
p Ù q
p Ú q
p® q
p « q
1
1
1
1
1
1
1
0
0
1
0
0
0
1
0
1
1
0
0
0
0
0
1
1

Da tabela acima, infere-se (deduz-se) que:

·        a conjunção é verdadeira somente quando ambas as proposições são verdadeiras.

·        a disjunção é falsa somente quando ambas as proposições são falsas.

·        a condicional é falsa somente quando a primeira proposição é verdadeira e a segunda falsa.

·        a bi-condicional é verdadeira somente quando as proposições possuem valores lógicos iguais.

Exemplo: Dadas as proposições simples: p: O sol não é um estrela ( F ou 0) e q: 3 + 5 = 8 (V ou 1). Temos:

pÙ q tem valor lógico F (ou 0).
pÚ q tem valor lógico V (ou 1).
p® q tem valor lógico V (ou 1).
p« q tem valor lógico F (ou 0).

Assim a proposição composta “Se o sol não é uma estrela então 3 + 5 é igual a 8”é logicamente verdadeira, não obstante o conceito quase absurdo do contexto da frase.

Dica de Leitura:

- O Tractatus Logico-Philosophicus -   Ludwig Joseph Johann Wittgenstein
     

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Grécia foi o berço do pensamento e da filosofia Ocidental. As noções éticas, políticas, estéticas entre outros, nasceram num contexto grego, levado ao ápice por essa grande civilização e hoje, compartilhado por todo o mundo. Devemos muito aos gregos.
Hoje a Grécia enfrenta uma das crises economicas mais violentas da sua história. É estranho pensar que todo o esplendor da antiguidade grega se torne transparente e quase invisivel frente ao poder do Mercado e da Economia.

Para reflexão e instrução, abaixo segue um resumo bastante coerente da história grega. O texto não foi criado por mim, encontrei-o salvo no meu computador sem a identificação do autor e da fonte, mas achei pertinente compartilhar com todos vocês. Perdoe-me qualquer erro e fiquem a vontade a comentar, criticar e mesmo xingar se for o caso.

Prof. Maicon Martta


HISTÓRIA DA GRÉCIA




                              História Antiga  



O período inicial da história grega abrange três fases: (1) a Idade do Bronze (c.3000-c1200 A.C.), durante a qual floresceram as civilizações minoana e miceniana; (2) a Idade Média grega (c.1100-c.900 A.C.), quando se registraram vários surtos migratórios no Mediterrâneo; e (3) o Renascimento (séc. IX-VIII- séc. I A.C.), que assinala o triunfo da civilização helênica e a colonização, pelos povos da Hélade, de quase todo o mundo mediterrâneo e das costas ocidentais da Ásia Menor.



                 Civilizações Minoana e Miceniana.



Por volta do ano 3000 A.C, colonizadores procedentes da Mesopotâmia, ainda no estágio neolítico, ocuparam Chipre, Creta, algumas das Cíclades e áreas orientais da Grécia continental. Cerca de um século mais tarde foi introduzido o uso do cobre. Essa civilização, que teve como centro político e cultural Cnossos, em Creta, atingiu sua plenitude no séc. XV A.C. A antiga denominação dêsse povo é desconhecida, mas a maioria dos historiadores ,baseados em Homero, refere-se a uma civilização minoana, descendente de Minos. A escrita linear inventada pelos cretenses, com sinais para sílabas e números, ainda não foi decifrada.



Os núcleos populacionais de algumas das Cíclades e das regiões mais quentes da Grécia continental receberam a partir de 2600 A.C. novas ondas de colonizadores asiáticos, que se misturaram aos gregos ou helenos (jônios, dórios e sólidos) dando origem a uma vigorosa civilização, que floresceu em Micenas (Peloponeso), Tirinta e Pilos entre 1650 e 1125 A.C. Registros em escrita miceniana parcialmente decifrada, revelam que o grego era a língua dos governantes e que pelo menos alguns dos deuses olímpicos nomeados por Homero já eram então cultuados. O declínio do comércio com a Sicília, Tróia, Síria e Egito e o desastre iniciado com a guerra de Tróia levaram essa civilização ao colapsos.



                                       Movimentos Migratórios



À derrocada da civilização miceniana seguiram-se as migrações  que se desenvolveram no Mediterrâneo, sobre-tudo de povos oriundos do vale do Danúbio, que destruíram os estabelecimentos da Macedônia, do Epiro e de algumas áreas do mundo miceniano (aqueus, dórios, eólios e jônios). Somente Arcádia e Àtica lograram manter sua independência. A última dessas grandes migrações data de c.1000 A.C., quando os atenienses desfecharam a chamada migração jônica, concluída um século depois com a ocupação das Cíclades, dos setores central e ocidental da Àsia Menor e das ilhas adjacentes. Outros bandos estenderam essa àrea de caos à Itália, à Sicília e ao Norte da Àfrica.



            O Renascimento Grego.



Um oásis de civilização, formado pela Fenícia (v.), Palestina, Síria e Chipre, conseguiu sobreviver a êsse período caótico. Os fenícios fundaram Cartago e outras colônias e, juntamente com Chipre, renovaram o contato com as ilhas do Egeu, do Peloponeso Oriental e Atenas. Importante legado da Idade do Bonze foi a poesia épica, transmitida oralmente, e que tinha na Jônia seu maior reduto. O renascimento do espírito grego nos séc. IX a VIII A.C. foi um processo gradual, no qual a religião desempenhou papel preeminente. As tradições políticas do mundo miceniano mantiveram-se na Àtica, onde todos os cidadãos pertenciam a quatro tribos jônicas. Mais tarde, refugiados continentais organizaram seus pequenos Estados nas ilhas e na costa da Àsia Menor. Os dórios desenvolveram outro tipo de Estado em Creta e na Lacônia. Na planície do Rio Eurotas, cinco aldeias uniram-se polìticamente para formar Esparta (v.), à qual ligou-se ìntimamente o nome do reformador Licurgo e que rapidamente dominou seus vizinhos mais próximos. Dois outros Estados dóricos, Corinto (v.) e Mégara, formaram-se da mesma forma, no decorrer do séc. VIII A.C.



            A Expansão dos Estados Gregos



Os pioneiros do movimento de colonização foram os jônios da Àsia Menor que, liberados por Mileto, fundaram colônias nas costas do Mar Negro na primeira metade do séc. VIII A.C. Os jônios de Eubéia colonizaram a Ischia e a Sicília, e os das ilhas foram precursores da colonização da Trácia e da Ilha de Tassos. Os dórios do continente fundaram as colônias mais fortes . O surto de colonização continuou até c.550 A.C., quando centenas de colônias espalhavam-se na costa norte do Mediterrâneo, nas ilhas desde a Espanha ao Helesponto, no Mar Negro e na costa africana entre o Egito e Cartago. Os limites dessa área de colonização foram impostos pelos rivais marítimos dos milesianos, a Etrúria, a Fenícia e o Egito. As colônias gregas eram postos avançados da civilização helênica, radical e culturalmente fechados, de caráter nìtidamente comercial. A prosperidade súbita provocou perturbações políticas, sendo uma das primeiras a desagregação do velho sistema de aristocracia hereditária. Em Corinto, que passara a dominar o comércio ocidental, Cípselo implantou uma “tirania” que perdurou entre c.657 e c. 582 A.C., repetindo-se o exemplo em outros Estados. As dificuldades sociais decorrentes da prosperidade foram em muitos casos solucionadas por árbitros, dos quais o mais famoso foi Sólon de Atenas, nomeado em 594 A.C. Procurou Sólon ampliar a base econômica de Atenas, essencialmente agrícola e que permanecera à margem do movimento expansionista. Data dessa fase, entre 750 e 550 A.C., a adoção da moeda pelos Estados gregos.



            Conflito com a Pérsia



A expansão dos Estados gregos fôra favorecida por circunstâncias externas. Os Estados civilizados da Ásia Menor, da Síria, do Egíto, de Cartago e da Etrúria eram menos ricos e capazes do que os gregos, o que impedia a eclosão de qualquer conflito de maiores proporções entre êles. Tal situação, entretanto, modificou-se quando Ciro, o Grande, incorporou a Líbia ao Império Persa (546 A.C.). Pouco depois, em 514 – 513, Dario I (v.) obteve o contrôle das costas setentrionais do Mar Egeu, conquistou algumas ilhas gregas da Àsia Menor e do Helesponto e submeteu o rei da Macedônia. Com isso, a vida econômica de todo o universo helênico foi colocada à mercê dos persas. Por êsse tempo Esparta (v.) se tornara a maior potência grega, dominando (c.550) todos os Estados do Peloponeso (à execução de Argos) através de uma coalizão militar – a Liga do Peloponeso. Suas relações com Atenas, a outra grande potência helênica, não eram boas, o mesmo ocorrendo com diversos outros centros gregos (Argos, Egina, Tebas, Cálcis). Essa divisão do mundo helênico muito favoreceu a ação dos persas.  O primeiro esbôço de hegemonia nacional, ainda que precário, somente se desenhou entre 506-500 A.C., quando Atenas ingressou na Liga do Peloponeso. Em 498 ocorreu o primeiro choque de vulto entre persas e gregos, quando os jônios, liderados por Mileto, rebelaram-se contra o jugo de Dario I. A revolta somente foi sufocada em 494. Os persas restabeleceram  sua autoridade, estendendo-a, inclusive, à Macedônia. O esfôrço jônico, entretanto não fôra inútil, pois acordara a Grécia para o problema da união nacional, mais necessária do que nunca, ante a crescente ameaça do inimigo comum.



A guerra eclodiu em 490, quando Dario I capturou a Erétria e deportou seus habitantes. Comandados por Milcíades, os atenienses conseguiram rechaçar os agressores na Batalha de Maratona (490 A.C.). Uma revolta egípcia e outra babilônia retardaram por dez anos a nova tentativa persa, afinal iniciada (480 A.C.) sob o comando de Xerxes I (v.) que conquistou a Grécia continental até a Beócia, saqueando Atenas. As fôrças aliadas helênicas, sob a liderança de Esparta, retiraram-se para o Istmo de Corinto, e a população ateniense foi evacuada para a Ilha de Salamina. Aí os gregos se reorganizaram e partiram para a contra-ofensiva, infligindo severas derrotas aos persas em Salamina (480), Micale, Pláteia e Hímera. Pouco depois Atenas fazia uma aliança defensiva e ofensiva com vários Estados jônicos



   As Guerras do Peloponeso e o Século de Péricles.



Durante cêrca de meio século, após a derrota dos persas, o mundo helênico experimentou notável florescimento, apenas prejudicado pela primeira guerra do Peloponeso (460-445 A.C.), entre Atenas e a Confederação do Peloponeso, sob a liderança de Esparta. O séc V, conhecido como o “século de Péricles”, assinala a cristalização de tôda a cultura grega na História, no Teatro, na Filosofia, na Arte (v. Arte Grega; Clássica, Arte), na Medicina, na Arquitetura, etc. O período marca também o triunfo da democracia grega e do  imperalismo do Mar Egeu. Com suas medidas, Péricles (v.) deu a cada cidadão liberdade de língua, de educação, de pensamento político e de direito ante a justiça; aumentou o mercado de trabalho, melhorou as condições econômicas e humanizou o tratamento dispensado aos asilados estrangeiros e escravos; e juntou a tais benefícios uma Constituição segundo a qual o indivíduo estava diretamente envolvido em matéria de política e de administração. Internamente, porém, cresciam as dissensões entre Esparta, líder do bloco peloponesiano, e Atenas, esta última revigorada por sua heróica atuação durante a guerra contra os persas. A segunda guerra do Peloponeso (431-404) levaria ao colapso da civilização helênica e à sua subsequente anexação ao Império Romano. A luta, que incluiu duas fases distintas (431-421 A.C. e 413-404 A.C.), terminou com a derrota de Atenas na Batalha de Egos-Potamos. O conflito devastara a Grécia, sobretudo do ponto de vista político e econômico-financeiro.



Esparta e os Movimentos de Independência (404-371 A.C.).



 Com a derrota de Atenas, a Constituição democrática de Péricles foi virtualmente substituída pela oligarquia dos “Trinta Tiranos”, instalada com o assentimento de Esparta. Pouco depois, entretanto, 400-399 A.C., Esparta teve de enfrentar uma nova agressão persa, comandada por Ciro, o Môço, que contava então com auxílio dos lacedemônios, revoltados contra o domínio espartano. O conflito (ao qual pertence o famoso episódio da retirada dos 10 mil, narrada por Xenofonte) terminou com a ignominiosa paz de 387-386 A.C., pela qual Esparta cedia à Pérsia o controle dos Estados helênicos no continente asiático e de algumas ilhas do Mar Egeu. Essa paz determinou a perda da primazia de Esparta sobre o mundo grego, que se viu envolvido então nas lutas de independência (379-371 A.C.), ao longo das quais três forças despontaram: Tebas (v.), a segunda Confederação Ateniense e a Liga Beócia.



A Disputa entre os Poderes Dominantes e os Distúrbios Político-Econômicos (371-346 A.C.).



 Liderada por Pelópidas e Epaminondas, Tebas derrotou o exército espartano em Leuctra, na Beócia, em 371 A.C. A hegemonia tebana, porém, não durou muito, pois Epaminondas acabou vencido na Batalha de Mantinéia (362 A.C.), na qual os espartanos contaram com a ajuda dos antigos adversários de Tebas, os atenienses. Exaustos e divididos, os Estados helênicos do continente formaram então uma liga (362-361 A.C.), da qual, entretanto, ficou excluída Esparta. A época marca a ascensão da Beócia no cenário grego e o início de acirrada disputa entre os poderes dominantes, os quais, após a “guerra social” e a “guerra sagrada”, entraram em colapso quase total, ocasionando graves distúrbios políticos e econômicos no já conturbado mundo grego, agora sob a ameaça da Fócida. Pouco depois, todavia, em 346 A.C., Filipe ll da Macedônia, agindo por delegação da anfictionia délfica, esmagava por completo o poderio dos fócios. A derrota da Fócida abriu caminho ao avanço macedônio nas terras da Grécia Central e, em 338 A.C., nos campos de Queronéia, Filipe da Macedônia derrotava a oposição armada de Atenas e Espartas, insuflada pela retórica de Demóstenes.



               O Período Macedônio (338-323 A.C.).



 Logo após a vitória de Cheronéia, Filipe organizou a Liga de Corinto, liderada pelos macedônios, que incluía todos os Estados da Grécia continental européia, exceto Esparta. Seu principal objetivo era a mobilização de todos os Estados helênicos para a luta contra o inimigo tradicional, a Pérsia. Os desígnios do grande chefe macedônio foram, entretanto, subitamente ceifados, quando um de seus generais o assassinou em 336 A.C. Sucedeu-o o seu filho Alexandre lll, de vinte anos, discípulo de Aristóteles e depois cognominado Alexandre, o Grande. Durante dois anos Alexandre cuidou dos problemas das fronteiras do império e sufocou uma rebelião em Tebas. Finalmente, em 334 A.C, Alexandre, à frente de 40 mil homens, cruzou o Helesponto e, de vitória em vitória, numa extraordinária campanha militar, ocupou todo o vasto Império Persa, chegando até a Índia. Esse grande idealista, que, mesmo vitorioso, soubera reconhecer e admirar as virtudes persas, não conseguiu, entretanto, um mundo unificado sob o governo conjunto de persas e helenos, como sonhara, em virtude de sua morte prematura, aos 32 anos de idade, na Babilônia.



A Macedônia e os Estados Gregos(323-224 A.C.)



 As conquistas de Alexandre na Ásia trouxeram grande prosperidade ao Mediterrâneo Ocidental. O acúmulo de capitais permitiu a Atenas equipar uma poderosa frota e fortalecer as defesas da cidade; com isso, os demais Estados da Grécia continental usufruíram muitos anos de paz. As notícias da morte do grande chefe, entretanto, restabeleceram o clima de insegurança, abalando assim as bases da aliança com a Macedônia. Mais uma vez o mundo helênico dividiu-se em dois campos opostos: de um lado, Atenas; de outro, sua tradicional inimiga – Esparta. Os sucessores de Alexandre não herdaram sua visão política de integração dos impérios grego e persa, o que ocasionou graves perturbações na própria política interna da Hélade. As cidades-Estados gregas, já emancipadas, voltaram à luta fratricida. Diversas ligas ou federações foram então criadas visando à unidade nacional, mas todas, a curto ou longo prazo, terminaram por fracassar. Do lado macedônio constituíra-se a mornaquia selêucida, que se viu envolvida, entre 275-224 A.C., na guerra contra o Rei Pirro, de Epiro, e pelas intrigas de Ptolomeu ll do Egito, além de várias outras monarquias helênicas. Quantos aos gregos europeus, pode-se dizer que seu mais sério ensaio federalista foi a Liga Aquéia (280-146 A.C.), que reuniu quase todos os Estados do Peloponeso e algumas cidades de outras áreas, logo seguida da Liga Etólica, cujo período de fausto se estendeu de 245 a 213 A.C. Enquanto isto, com os macedônios disputando os despojos do Império Persa e os gregos ainda lutando por sua já esfacelada hegemonia interna, Roma congregava toda a Itália ao sul dos Apeninos, constituindo uma nova comunidade que seria, em breve, o novo poder dentro do mundo helênico.



                            Domínio de Roma



 De 224 a 205 A.c., os macedônios prosseguiram em sua tentativa de firmar-se no mundo grego, mas sem qualquer êxito significativo. O período de 205-146 A.C. marca o avanço dos romanos, que em 148, anexaram a Macedônia como província, esmagando dois anos depois as forças da Liga Aquéia. Posteriormente, todas as demais ligas foram abolidas e a democracia grega substituída por uma oligarquia de Estados sob a égide de Roma. Com o colapso da Liga Aquéia e a derrota de Corinto, principal foco de resistência, a Grécia passou à condição de província do Império Romano. Alguns Estados porém, como Atenas e Esparta, continuavam a manter seus direitos como civitates liberae. Os distúrbios no Império Romano passaram, todavia, a repercutir intensamente dentro do mundo grego, como aconteceu quando da primeira guerra contra Mitridates (88-85 A.C.) e do conflito entre Júlio César e Pompeu (48 AC.). Finalmente as requisições feitas à Grécia por Marco Antônio, em 31 A.C., para sustentar a sua campanha contra Otávio (futuro Augusto), constituíram o golpe de misericórdia para o país.



O Governo Imperial Romano (séc. l A.C. – séc. lll D.C.)



Ao reorganizar as províncias do Império Romano, Augusto incorporou a Tessália à Macedônia e converteu o restante da Grécia na Província de Aquéia, sob o controle de um procônsul senatorial romano residente em Corinto. Diversos Estados helênicos, incluindo Atenas e Esparta, mantiveram sua condição de cidade livre. Do ponto de vista econômico, entretanto, a nova província pouco iria lucrar. Somente no campo da cultura é que o mundo grego faria ainda valer o poderio de sua glória passada e Atenas possuía uma das principais universidades do Império Romano. Aos poucos, Roma helenizava-se, e a Grécia colhia os frutos dessa influência, sobretudo durante os reinados de Cláudio e de Adriano. Até fins do séc. lll, quando Diocleciano reorganizou o império, os gregos tiveram de enfrentar o perigo de agressões externas, a última das quais se registrou em 269 D.C. A partir de então, a Província de Aquéia (ou da Grécia) passou a ocupar uma posição de privilégio na diocese de Mésia, na época em que o Cristianismo já começara a dominar e dividir o mundo romano. 



              O Período Bizantino (séc. lll – séc. XV)



Sob Constantino, o Grande, a Macedônia tornou-se uma diocese da Prefeitura da llíria e foi subdividida nas eparquias de Tessália, Aquéia (incluindo as ilhas Jônicas e do Mar Egeu), Epiro (incluindo as ilhas de Corfu e Ítaca) e Creta, enquanto as demais ilhas gregas formavam a eparquia da Diocese da Ásia. Foi introduzida uma complexa hierarquia de oficiais imperiais e elaborado um sistema de tributação para garantir a receita. A elevação de Constantinopla à condição de capital, em 330, foi prejudicial à Grécia, obrigada a competir com um novo centro cultural. O comércio e a agricultura declinaram. Somente a cultura helênica ainda gozava de algum prestígio, elevado ao máximo durante o reinado de Juliano, o Apóstata. Durante os séc. lV e V ocorreram as invasões de visigodos e ostrogodos, comandadas por Alarico e Teodorico, de vândalos, e no séc. IV a dos hunos, em Corinto. No séc. Vll sobrevieram invasões de ávaros e eslavos. Os imperadores da dinastia isauriana (séc. Vlll – séc.  Xll) prosseguiram na tarefa de reorganização das províncias em temas (divisões administrativas), iniciada, ao que parece, pelos imperadores heraclianos do séc. Vll. Por volta do séc. X, a Grécia estava dividida nos temas de Helas, Peloponeso, Nicópolis, Dirráquio, Cefalônia e Tessalonica, além dos temas marítimos de Samos e do Mar Egeu. Com a conquista de Constantinopla pelos cruzados (1204) e o subsequente estabelecimento de um império latino, a Grécia viu-se dividida entre os conquistadores latinos e os aspirantes bizantinos ao trono imperial, disputa essa que somente terminaria em 1453 com a tomada de Constantinopla pelos turcos.



A história moderna da Grécia compreende, inicialmente, um longo domínio turco, o qual, iniciado com a queda de Constantinopla, somente terminaria na primeira metade do séc XlX, ao surgirem os primeiros sinais de indepedência. Daí em diante, a Grécia caminha para a mornaquia, passa por uma breve fase republicana e retorna em 1935 ao regime monárquico, que perdura até os dias atuais.



                Domínio Turco (1453-1821)



 Em algumas regiões (Trebizonda, Epiro, Rodes, Chipre,Creta e Tênedos), o império dos gregos ainda sobreviveu à dominação turca durante alguns anos. Quase todas as ilhas jônicas lograram mesmo escapar-lhe. Os turcos otomanos gozaram de relativa popularidade durante os primeiros séculos de ocupação, o que se deveu, sobre-tudo, à capacidade administrativa dos primeiros sultões e, também, ao caráter não-opressivo dessa ocupação, pelo menos durante a fase áurea do império, identificado com o reinado de Suleiman, no séc. XVl. Outro fator preponderante nas boas relações greco-turcas foi o sistema político otomano, adaptado às condições locais e que, ao menos em parte, conseguiu assimilar a concepção helênica de nação-Estado. Com o correr do tempo, os gregos começaram a infiltrar-se nos quadros da administração turca, e vários dos mais importantes cargos administrativos eram destinados a gregos. Todos êsses fatôres contribuíram para um clima de relativa segurança e tranquilidade, afinal rompido na segunda metade do séc. XVIII, quando do início das manifestações do nacionalismo grego, severamente reprimidas pelos turcos.



O levante do Peloponeso, em 1770, marca virtualmente o início da moderna história da Grécia. A revolta, preparada e incitada pela Rússia, apanhou os turcos de surprêsa e logrou obter um êxito inicial. Em 1774, porém, os turcos conseguiram debelar o movimento, seguindo-se então um  período de bárbaras repressões por parte das fôrças do sultão. Entre os levantes de 1770 e 1821 vários fatos históricos mudaram a situação, tornando-a favorável aos gregos, que passaram a despertar o interêsse de tôdas as grandes potências da época, sobretudo Rússia, França, Àustria e Inglaterra. A oportunidade concreta para a revolução surgiu em 1820, quando Ali Paxá (v.), governador provincial, rebelou-se contra Sultão Mahmud II. Os gregos levantaram-se em março de 1821 e a guerra prolongou-se até 1829. Entretanto, desde a Batalha de Navarino, em 1827, estava garantido o triunfo grego.



            A Primeira Fase da Independência (1829-64)



 Entre 1822, quando o Congresso de Epiro proclamou a independência nacional, e 1829, ano em que o Tratado de Andrinopla constituiu a Grécia como Estado soberano, o país atravessou uma fase conturbada, sendo o govêrno provisório exercido pelo patriota J. Capodistria, assassinado em 1831. Seguiu-se um período de caos durante o qual se registrou a ingerência de nações estrangeiras nos problemas gregos. Pela Conferência de Londres (1832), a Grécia foi definida como reino independente, sob a proteção da Grã-Bretanha, França e Rússia. Em 1833,a  nova monarquia grega passava a ser regida pelo Rei Oto, da Baviera, por imposição das potências protetoras,e no ano seguinte a capital foi transferida de Náuplia para Atenas. Oto governou até outubro de 1862, sempre assessorado por primeiros-ministros gregos, heróis da guerra da independência. Seu sucessor, o Rei Jorge I, filho do herdeiro ao trono da Dinamarca, foi escolhido conjuntamente em 1863 pelos representantes da Grã-Bretanha, Àustria, França, Prússia e Rússia.



                                   A Nova Monarquia (1863-1924)



Jorge I reinou por meio século (1863-1913), e seu reinado marcou uma nova era na história moderna grega. O período destaca-se pelos substanciais acréscimos territoriais feitos à Grécia, que ganhou a Tessália, a maior parte do Epiro grego e da Macedônia, Creta e a maioria das ilhas jônicas. Uma nova Constituição, a de novembro de 1864, abolia o Senado, substituindo-o por um Conselho de Estado nomeado pela coroa; estabelecia ainda eleições populares para a escolha dos governos locais; e, finalmente, definia a posição do rei, que seria apenas instrumento da vontade popular. Tal sistema passou à História com o nome de democracia monárquica, tendo sido aplicado por Jorge I durante 47 anos ininterruptos, até a sua revisão, em 1911. Êsse clima de estabilidade, contudo, foi por diversas vêzes abalado: em 1866, pela insurreição de Creta; em 1877-78, pela Guerra Russo-Turca; em 1896-1912, pelo levante conjunto de Creta e da Macedônia; e, finalmente, em 1912-13, pela Guerra dos Balcans, no decurso da qual o Rei Jorge I foi assassinado (1913), sucedendo-o então seu filho Constantino I.Logo após, em 1914, era a I Guerra Mundial que abalaria a estrutura do regime. Ao Rei Constantino, afastado em 1917, sucedeu Alexandre, seu segundo filho, que contou com o apoio de um dos maiores nomes da vida pública grega, o Primeiro-Ministro Eleutherios Venizelos. Alexandre morreu em outubro de 1920 e, no mês seguinte, Venizelos perdeu o contrôle da situação. A 20 de dezembro daquele mesmo ano, Constantino foi reposto no trono sobe grande emoção nacional. Em janeiro de 1921, a ocupação de Smirna, na Anatólia, por fôrças gregas, deu origem a uma catastrófica disputa com a Turquia (1921-1922). Constantino, responsabilizado pelo desastre, abdicou em favor do Príncipe Jorge, depois Jorge II. Um ano depois, todavia, a junta revolucionária do Gen. Plastiras convencia o nôvo monarca a deixar o país. Essa junta renunciou em janeiro de 1924 e, em março, a República foi proclamada, sendo confirmada pelo plebiscito nacional de abril. Seu primeiro presidente foi o Almirante Pavlos Koundouriotis, herói das guerras balcânicas.



            A República (1924-35) 



 Koundouriotis foi logo deposto (1926) pelo Gen. Theodoros Pangalos, que, por sua vez, viu-se derrubado, naquele mesmo ano, pelo golpe de Estado do Gen. Georgios Kondylis. Êste convocou novas eleições e recolocou Koundouriotis no poder. Em face da gravidade da situação política, Venizelos foi novamente chamado para o cargo de primeiro-ministro em 1928 e, um ano depois, Alexandre Zaimis foi eleito o nôvo presidente. A República parecia ganhar estabilidade e apoio popular, mas, em verdade , era profunda a dissensão entre as correntes políticas antagônicas. A posição de Venizelos foi muito abalada pela crise financeira de 1932, e uma transformação no sistema eleitoral deu ensejo à formação de diversos grupos que passaram a disputar o poder. Duas facções sobrepujaram as demais: a dos populistas, sob liderança de Panayiotis Tsaldaris e que não disfarçava sua intenção de restaurar a monarquia; e a dos liberais, chefiada por Venizelos e que se batia pela reeleição de Zaimis no pleito de 1934.



            A Restauração da Monarquia



 Em março de 1935 malogrou um golpe de Estado cujo objetivo era colocar Venizelos no poder e frustrar as pretensões realistas. Isto significou o fim da carreira política de Venizelos, tornando certo o retôrno de Jorge II, o que de fato ocorreu em fins de 1935. A monarquia foi restaurada, e a Constituição de 1927, substituída pela de 1911. A Grécia muito sofreu com a ocupação nazista durante a II Guerra Mundial quando o Rei Jorge II viu-se obrigado a partir para o exílio. Terminado o conflito, era flagrante a ascensão da influência dos comunistas, que, entre 1946 e 1949, chegaram mesmo a instalar um governo provisório nas montanhas setentrionais. Por algum tempo, os destinos da nação estiveram entregues ao arcebispo de Atenas, Dimitrios Papandreou, mas, em 1946, um plebiscito decidiu pela volta de Jorge II. Este pouco sobreviveu, sendo sucedido, em 1947, por seu irmão Paulo. A Grécia passou então a receber ajuda maciça dos E.U.A. para conseguir alcançar seus objetivos quanto a um equilíbrio econômico-financeiro. Apesar disto, ao longo dos últimos 20 anos, o país vem tendo de enfrentar sucessivas crises políticas e internacionais. A questão de Chipre, por exemplo, tem contribuído muito para a debilitação do regime, já de si conturbado por graves distúrbios internos. As eleições de 1964 deram significativa maioria parlamentar a Georgios Papandreou; nesse mesmo ano, entretanto, morreu o Rei Paulo, que foi sucedido no trono por seu filho Constantino. O nôvo monarca demitiu Georgios Papandreou, substituindo-o por seu filho Andreas, e, em dezembro de 1966, autorizou Ioannis Paraskevopolos, presidente do Banco Nacional, a formar nôvo gabinete. Em março de 1967 o govêrno renunciou, assumindo como primeiro-ministro Panayotis Kanellopoulos, líder da União Radical Nacional. O Parlamento foi dissolvido a 14 de abril, a 21 um grupo de militares derrubou o govêrno, aparentemente à revelia do rei, ocupando Atenas. Sob pressão, Constantino II concordou em apoiar o nôvo regime, chefiado por Konstantinos Kollias. A 13 de dezembro, após uma tentativa frustrada de retornar o contrôle da situação, o Rei Constantino abandonou o país. Tornou-se primeiro-ministro o Cel. Georgios Papadopoulos, sendo o Gen. Georgios Zoitakis nomeado para a regência do trono. Em 1968, após o plebiscito de setembro foi promulgada a nova Constituição.